sábado, 15 de maio de 2010

Descobri que Dor nas Costas pode ser algo "Maravilhoso"

Hoje estou com tanta dor nas costas que agora sei o significado da imortal frase do doutor House (que também é atormentado por terríveis dores na perna) quando o mesmo diz: 'sou fisicamente incapaz de ser gentil'. De forma que tenho amaldiçoado tenazmente todos aqueles que me tem feito levantar à toa nesses últimos dias. Fui agraciado pelo lado paterno com um problema de reumatismo terrível. Desde os seis aos de idade que comecei a sentir. Entretanto, era bem mais ameno do que hoje em dia. Ah mamãe se você tivesse traído meu pai,... seria capaz de ficar feliz com isso, rsrsr. Brincadeira.

Aproveitando a minha condição, pensei que era o momento oportuno de voltar a fazer uma postagem no meu blog. Esse companheiro tão fiel, sempre presente. E que tema melhor para se refletir do que a gentileza, a cortesia, a arte de se fazer amável diante dos outros. A frase é proposital sim, pois, se fazer amável, é completamente diferente e bem mais fácil do que ser verdadeiramente amável.

Vocês já pararam para observar que geralmente as pessoas fora dos padrões físicos ou intelectuais impostos pela sociedade, ou mesmo aqueles que não têm muito o que oferecer (por favor não me entendam mal, quando digo oferecer é no sentido de escambo social, ou seja, influência, bens, ..., e não no sentido humano-espiritual da coisa, pois todos nós somos prenhes de coisas maravilhosas a ser oferecidas), são os que dominam a verdadeira arte da gentileza, da cortesia, do 'se importar' com o outro.

Usando a linguagem da série 'supernatural' (que eu adoro e que terá um sexta temporada graças a Deus) essas pessoas são os receptáculos da doçura divina, como eu as invejo, rsrsrsrs, nunca fui verdadeiramente capaz de expressar tal sentimento em sua totalidade.

O mais triste é que esses pessoas apenas refletem para nós a forma como realmente gostariam de ser tratadas, ao mesmo tempo que silenciosamente denunciam a crueldade que lhes é imposta todos os dias, de forma imperceptível para nós, mas bastante tangível para eles.

Mais uma vez preciso recorrer a lembranças de um santo passado, para expressar a complexidade do assunto. Para aqueles que dizem: De novo, quero deixar algo bem claro.

Queridos, o passado não existe, ele nem sequer é passado. Ele está sempre presente nas marcas deixadas na nossa alma, ou psiquê como queiram entender.Por isso sempre gosto de colocá-lo no seu lugar de evidência, fugindo das fórmulas fáceis tipo: 'o tempo cura todas as feridas'. Feridas cicatrizam, mas essas marcas permanecem na parte atingida. Como a natureza é sábia em expressar por processos biológicos as verdades espirituais. Por isso sempre apresento as marcas indeléveis que carrego ou que presenciei. O Cristo ressuscitado permaneceu com as dele, porque eu seria mais bem aventurado que Ele?

Certa feita, eu estava um pouco entediado, sem ter o que fazer no seminário. Então dois seminaristas me convidaram para sair. Não vou descrevê-los fisicamente. Eles pertenciam a diocese (para os que não sabem é a divisão territorial da igreja, que atua num universo paralelo, tipo matrix, e não num Estado com uma divisão política oficial) que possuía o maior número de seminaristas na época. A Diocese onde aparentemente todos se amavam. Eu morava lá sozinho, era único. O que tinha suas vantagens não posso negar e o tempo veio comprovar. Bem, mesmo assim, sempre gostei de ter companhia para sair e conversar.

Fomos então a uma pastelaria que ficava próximo. Conversamos sobre muitas coisas e sem querer perguntei: 'Por que vocês não foram com os outros hoje ao shopping?'. E aí eles me disseram: 'Márcio, nós somos excluídos. Eles nunca nos chamam para sair juntos'. 'Aquilo é só aparência'. Nesse momento fiquei sem jeito e mudei o assunto.

Um deles saiu e casou anos depois. O outro foi cruelmente colocado para fora da sua diocese. Com uma rápida manobra consegui colocá-lo dentro da minha diocese e hoje ele é padre. Até onde sei um bom padre. Sinto-me feliz em ter feito isso. Embora não fosse muito próximo a ele. Acho que por isso mesmo foi válido.

Isso me chamou a atenção e passei a observar que os mais jovens, inteligentes e belos sempre estavam em grupos homogêneos. E que os que fugiam a esse padrão eram, digamos, elegantemente, percebidos com menor evidência. Se conseguiam pelo menos ser engraçados, tipo il pagliacci, passavam a orbitar como satélites esses grupos. Hoje percebo como isso é verdade, mas não só lá, no mundo em geral. O que é escadaloso é que lá não deveria ser assim, era para ser o contrário.

Outro santo exemplo de gentileza, é do padre 'maravilha'. Trata-se de um indivíduo (estou sendo homericamente amável em denominá-lo dessa forma, saiba, se um dia vier a ler, que deletei dezenas de outros vocábulos até santamente selecinar esse, pois você entre todos é menos digno de misericórdia) que teve a sorte de ser apadrinhado por um dos incautos santos bispos, que além de elevá-lo aos louros do sacerdócio, ainda propiciou para o mesmo uma magnífica temporada na europa com direito a pós graduação, ..., enfim, o pacote completo.

Esse cara me tratava super bem na época de seminário. Chegava a me bajular realmente, não que eu fosse coisa do outro mundo, mas bajular era algo inerente para com todos que partilhavam o seu universo eclesiástico cheios de títulos de nobreza (acredito que ele plantava lisonjas na esperança de no futuro colher favores, era um prelado previdente não há de se negar). Como o professor Horace Sloughorn do Harry Potter.

Inteligente não, no mínimo esforçado. Queria ensinar toda e qualquer disciplina que lhe caísse nas mãos, não sei ao certo se gostava narcisisticamente de ensinar para ouvir a própria voz 'maravilhosa' ou se era por necessidade financeira mesmo.

Certa feita fui visitá-lo. Cheguei à paróquia em que atuava como vigário (sim, vigário, pois pároco só se o bispo enlouquecesse, ou o maravilha quisesse se matar, rsrsr) por volta das dez da manhã. Impagável a cara de sono do mesmo. Disse estar estudando. Conta essa pro otário que pagou tua faculdade (e já morreu até, Deus o tenha, era uma boa pessoa), mas pra mim não violão. Sei o que é cara de sono de preguiça.

Enfim, quando saí do seminário fui lá falar com ele. Na esperança de algum apoio (depois esclarecerei as circunstâncias e motivos reais que farão com que todos entendam isso melhor). Que transformação, a máscara finalmente caiu. Não se deu nem ao trabalho de esconder a vontade de encerrar a conversa e me entregar a própria sorte. Talvez fosse perigoso ajudar alguém que saiu do seminário, o que os outros poderiam pensar. Agora, pergunte se não procurou ao máximo perscrutar sobre minha vida pessoal a fim de saber o que aconteceu para depois poder falar e emitir juízos sobre mim?

Obrigado padre, muito obrigado mesmo. Eu acreditava em você, até gostava de você e procurava entendê-lo. Até defendia você dos ataques que muitos lhe faziam pelas costas. Sabe, agradeço mesmo a Deus, não ter me concedido esse "dom da gentileza" que você tem. Acredito que sou mais feliz com as dores nas costas e o fato de ser grosso mesmo. Afinal, o autor sagrado já nos adverte que é preferível estar no sopé da casa do Pai Divino (que você tanto gosta de invocar) a estar na glória da mansão dos idiotas (paráfrase nossa).

Bom Final de Semana a Todos.











domingo, 9 de maio de 2010

Visitantes

Ontem, um dos meus colegas de seminário, conversando rapidamente (novidade) comigo, elogiou minha postagem que contém uma reflexão sobre as visitas de superiores religiosos. Disse ele ser bom que as pessoas emitam suas visões a respeito de determinadas posições e apresentem também sugestões tal como fiz. Gostaria de agradecer pelo comentário ao vivo. Nas próximas visitas, tanto suas como de outros amigos, gostaria de ver algum comentário escrito; pois, assim, poderei direcionar melhor o meu trabalho. Dificilmente tenho tempo para escrever.

Atualmente, observando o caminho seguido pelos blogs mais visitados na internet (inclusive por mim mesmo) percebo que sempre procuramos neles alguma coisa que possamos ficar para nós. Sejam coleções de cds de música erudita, ou filmes antigos, seriados, ... Todos buscamos alguma coisa que possamos guardar de certa forma como integrante da nossa individualidade e a ela preciosa.

Fico feliz de certa forma, pois como não ofereço nenhum brinde que possa ser 'baixado' é bom saber que somos visitados. Ontem mesmo recebi outra visita, essa mais pessoal. Uma equipe de uma emissora local veio fazer uma matéria sobre a minha criação de animais. Ela deverá ser exibida em breve. Quando souber a data colocarei com mais detalhes para que possam participar da minha alegria em ver meu trabalho reconhecido e divulgado na mídia.

Seria bom, que as pessoas cultivassem mais em nosso mundo o hábito de visitar uns aos outros. Não falo de visitar por visitar, nem das famosas 'visitas de médico' mas sim naquela forma especial de encontro-reencontro em que sentimos que alguém participa da nossa intimidade, através da simpatia, aceitação, cumplicidade.

Sempre procuro escrever com responsabilidade nesse blog, a fim de não cometer impropriedades, sejam elas literárias ou mesmo de caráter. No pouco tempo de vida que tenho, testemunhei muita coisa mesmo. Nem todos ficaram felizes em ver essas lembranças publicadas aqui. Acho que por isso escrevo pouco, pois procuro deixar que apenas alguns momentos apareçam, é melhor e menos doloroso que assim seja. Entretanto, advirto, para aqueles que entenderem tudo aqui está escrito.

Vou encerrar falando justamente sobre o tema que surgiu hoje 'visitas'.

Geralmente, sou visitado com muita regularidade pelos amantes da gatofilia, ou por clientes que desejam adquirir um filhote para criar. Alguns amigos, os de verdade, descobrem formas curiosas, físicas e metafísicas de sempre estar presente em nossas vidas. Os falsos amigos procuram imitar; porém, quando diante de pessoas com personalidade, e inteligência suficiente, não conseguem esconder o seu embuste.

Quando tomava conta do rebanho a mim destinado, numa pequena comunidade do interior cearense cheguei a visitar regularmente cerca de 36 pessoas enfermas. Lembro-me de que na realidade elas é que me visitavam, pois tinham tanta vida interior, tanta riqueza humana que completavam muito do meu estéril coração, alimentado somente pela doutrina dos santos estéreis. Eu me alimentava de sua fé, de sua alegria, da riqueza de suas vidas e tentava retribuir escutando, contando anedotas e oferecendo um pouco de mim mesmo. Não gostava muito de doutriná-los ou rezar com eles, isso eles sabiam fazer melhor do que eu.

Ao me achar fora da 'sombra da salvação' (pois acredito que a glória reservada ao homem por Deus seja bem mais clara do que me mostraram os mestres do mistério) sempre senti em meu coração a visita constante daquelas 36 pessoas, a me confortar e dar esperança de uma vida melhor. Daquelas pessoas, que, mesmo sabendo que não haveria mais retorno, conseguiam agradecer o dom da vida e sorrir para ela. Elas me visitam todos os dias. Já 'os outros', vamos dizer que bienalmente um ou no máximo dois realizam um check up afetivo (usando um termo mais técnico-pastoral, uma desobriga).

Eu compreendo, perfeita e sinceramente, pois não se pode dar aquilo que não se tem, e como o bardo imortal Shakespeare nos diz pela boca do Rei Lear 'Nada virá do nada'. Seria, portanto, no mínimo quixotesco esperar que criaturas forjadas sob a doutrina acrisolada do incauto Papa Bento XVI - que, pasmem, inaugurou seu pontificado com uma encíclica sobre o amor (ninguém pode negar que o diabo não tenha senso de humor) - fossem capaz de atitudes diversas.

Acho até que me excedi um pouco, rsrsrsr, mas alguém com o coração fecundo de amor como ele saberá perdoar. Afinal, temos duas coisas em comum, duas paixões que movem nossas vidas, caso ele não saiba, criamos gatos e tocamos piano. Como falei anteriormente o senso de humor do diabo é deveras surpreendente, rsrsrsr.

Um abraço a todos os visitantes. Voltem mais vezes.